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1/3/2005 - As filas são educativas

Eu sou contra. A prefeitura de Salvador, por ordem direta do prefeito João Henrique, decidiu cumprir a lei municipal que obriga as agências bancárias a atenderem seus clientes em, no máximo, 15 minutos. Melhor dizendo, para evitar qualquer tipo de sofisma ou má interpretação - a permanência de cada pessoa na fila, se houver fila, não pode exceder 15 minutos, não sendo computado para isto o tempo em que o atendimento dessa pessoa já está acontecendo no guichê. O prefeito não deu a ordem apenas porque quis. Deu porque é obrigação sua, como chefe do Poder Executivo municipal, executar ou promover a execução da lei e ele não deveria prevaricar, deixando de cumprir seu dever legal, numa imitação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo o PSDB, prevaricou ao não cumprir a obrigação de apurar uma suposta corrupção do governo anterior que lhe foi denunciada por um “alto funcionário” do seu governo e ainda se deu ao luxo de mandar o tal “alto funcionário” fechar o bico. Bem, passados dois anos, o presidente, ainda segundo o PSDB, confessou em um “discurso atravessado” a prevaricação, que é crime, disse que a praticou para não manchar a imagem do país, contou a história com alguns detalhes, exceto exatamente os essenciais, a exemplo de quem lhe denunciou a corrupção, qual foi essa corrupção, quando e onde ocorreu e quem ou quais as pessoas que a praticaram. E, nem no “discurso atravessado” nem depois, apesar das cobranças, adotou ou sequer prometeu adotar providências para apurar tudo, punir os responsáveis e recuperar do que se perdeu o que for possível. Bem, mas se o PSDB está dizendo que o presidente prevaricou e apelando para o Senado, a Câmara dos Deputados, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, nenhum partido está acusando o prefeito de Salvador de prevaricação. Muito ao contrário, ele está tratando de cumprir a lei, embora se trate (mesmo que ele seja a favor dela) de uma lei muito inconveniente. Eu, que, nos meus direitos de cidadania, tenho o de discordar das leis, ainda que obrigado a cumpri-las, discordo radicalmente desta que obriga os bancos a tratar seus clientes comuns (os especiais raramente entram em filas) humanitariamente, com no máximo 15 minutos de fila. Sou contra, em primeiro lugar, porque fila no Brasil é tradição. Onde é que já se viu não ter fila para cumprimentar o presidente, não ter fila no INSS, não ter fila para atendimento no SUS, para marcar consultas médicas, para ter audiências na Justiça, para ser operado nos hospitais públicos, para se matricular nas escolas (nestas, pode haver sorteio de vagas onde haveria filas, o que não sei se é melhor ou pior, nem democrático, mas é cômodo), para se aposentar e para corrigir aposentadorias, para receber aposentadorias ou pensões atrasadas, para embarcar nos ônibus, para aguardar por até dez anos o pagamento de precatórios. Ora, agora vem essa história de diminuir para valer as filas nos bancos. Vá o leitor até a agência da Caixa Econômica do Iguatemi e veja as filas. Como é que se pretende reduzir aqueles portentos, aquelas construções serpentinas, em ridículas filas percorríveis em 15 minutos? Isso é desmoralizar uma das mais arraigadas instituições nacionais. Mas há outro e muito maior problema. Nos tempos da União Soviética, o povo morava nas imensas filas para tudo e os médios e pequenos funcionários do Partido Comunista e do governo furavam essas filas, sob aprovação geral dos enfileirados - os furões eram funcionários do povo e perderem tempo em filas só iria fazê-los perder tempo e isso prejudicaria o próprio povo, pelo qual deveriam estar trabalhando ao invés de ficar nas filas. Em tempo: os altos funcionários não furavam filas. Eles mandavam os médios e pequenos furarem para resolverem o problema deles, os altos. Bem, aqui não temos o totalitarismo comunista, com seu partido e seu governo. Mas temos, no entanto, outros grandes beneméritos, as instituições bancárias. Elas são vitais para o desenvolvimento do país. Sem elas, desconfio que o Brasil seria um buraco no meio do nada. Hoje apenas está no buraco, mas não é o buraco, e há algumas coisas em volta, de modo que alguns acham que podemos nos safar. Mas não sem os bancos. Então, se são vitais, porque ficar azucrinando-lhes a vida com essas leis e histórias de filas? Filas são, aliás, educativas. Ensinam paciência, disciplina e obediência.

Fonte: Tribuna da Bahia (BA)

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